Life Kaizen

Em japonês, Kai significa mudar, Zen significa melhor! Os dois símbolos da imagem acima formam a frase mudança para melhor. Kaizen ou melhoria contínua surgiu no ambiente industrial japonês do pós II Guerra e popularizou-se como uma das principais filosofias do já batido (e geralmente mal aplicado) Sistema Toyota de Produção e sua versão mais ocidental e moderna, o Lean Manufacturing.

Ao longo dos anos o conceito foi solidificando-se e fugindo dos ambientes industriais. Hoje é aplicado a negócios de maneira geral, em várias formas e diferentes empacotamentos. O princípio básico é que as mudanças não precisam vir em ondas gigantescas, disruptivas e altamente arriscadas e combatidas pelo status quo. Nem deveriam ser feitas por um grupo especializado, sentado em um escritório com ar condicionado, debatendo acerca daquilo que não vive, e não vê. Ao contrário, o Kaizen é composto de pequenas melhorias, que acontecem o tempo todo, no Gemba (outra palavrinha japonesa esperta, que significa “local verdadeiro”, ou seja, na frente de batalha, no chão de fábrica). Ele é feito por quem faz, e não por quem observa.

Mas o Kaizen tem um truque, que nem sempre é observado. Ele é sim composto de pequenas melhorias contínuas, entretanto, a cada pequena melhoria segue-se um ciclo de estabilização. Neste ciclo, representado por um linha reta, observa-se os efeitos (desejados e indesejados) da melhoria implementada, reflete-se sobre ela, prepara-se para a próxima (com o aprendizado na bagagem) e aí sim parte-se para a nova melhoria (veja a figura abaixo). Esse é o grande segredo, o truque máximo do Kaizen. Não se faz melhoria sobre a melhoria, sem o fechamento do ciclo anterior. Melhoria sobre melhoria é um convite ao caos, e isso é o oposto do que se busca na filosofia Kaizen. É o oposto do que se busca na vida empresarial, e na vida, de maneira geral.

Falando em vida, de maneira geral, e especialmente na vida profissional, podemos aplicar a mesma filosofia. Chamei isso de Life Kaizen, só para dar um nome chique para o negócio! Defendo sempre que uma vida profissional florescente é composta de pelo menos três elementos cruciais, a saber, um objetivo muito claro, foco de raio laser (ou seja, saber dizer não para coisas boas) e o que eu chamo de firmeza de propósito, ou capacidade de fechar ciclos. Nenhum destes três elementos é simples de garantir no dia-a-dia, por isso mesmo o sucesso é para poucos.

O lance é imaginar sua vida profissional como o Kaizen, uma série de melhorias seguidas de períodos de estabilidade, entrega e fechamento de ciclos. Dá uma olhada na figura abaixo.

Ao final de cada ciclo profissional, segue-se um período de melhoria, representado geralmente por uma promoção, uma troca de empresa, um novo negócio, o que quer que seja. Esse período é menos estável, de maior aprendizado e onde as possibilidades se abrem em maior profusão. Justamente por isso são os períodos mais sexies. É onde a maioria gosta de estar. A questão é que essa ânsia por novidades geralmente faz com que se pule os períodos de entrega verdadeira, de fechamento de ciclos, de resultados. Busca-se melhoria em cima de melhoria, e com isso, como já vimos, vem o caos. Em processos seletivos isso fica muito claro. Quando pergunto para a maioria dos candidatos sobre um grande resultado que tenham atingido, recebo como resposta uma grande ideia que teve. E o resultado? Bom, como mudou de empresa, não deu tempo de ver o que aconteceu.

Para evitar essa armadilha e garantir uma carreira sempre florescente, é importante que se respeite esses ciclos, e as características de cada um.

Ciclo Profissional: é aqui que a entrega é feita. É onde você dá o payback para quem te contratou. Onde os resultados combinados são atingidos, na prática, no balanço da empresa e não no power point (ou no Prezi, se você for mais modernoso). Firmeza de propósito é a palavra chave. Não deixar de acreditar porque ficou difícil. Quebrar barreiras, liderar quem está em volta e entregar.

Análise de Possibilidades: adoro o filme As Horas, quando deitadas em um cama, com os pés balançando para fora, mãe e filha falam sobre a vida. A filha agoniada porque quer, onde já se viu, ser feliz. A mãe, com sua experiência (e atuação brilhante da Meryl Streep) a provoca dizendo: “Eu me lembro que um dia acordei de manhã e havia uma sensação de possibilidade. Sabe esse sentimento? E eu me lembro de ter pensado: “Este é o início da felicidade. É aqui que ela começa. E, é claro, haverá muito mais.” Nunca me ocorreu que não era o começo. Era a felicidade. Era o momento. Aquele exato momento.” Diálogos geniais à parte, esse texto espetacular mostra o que foge a muitos, a felicidade não é um destino, e sim a quantidade e a qualidade das possibilidades que se abrem para nós o tempo todo. Por isso mesmo muita gente fica presa exatamente neste ponto da curva do Kaizen. É um momento mágico, mas alguma hora devemos escolher um dos caminhos, e nos prepararmos para segui-lo com firmeza.

Aprendizado e Preparação: esse é um dos momentos de maior crescimento. É onde a curva está mais inclinada. O segredo aqui é dedicar horas e mais horas se preparando para o novo desafio, e resistir à tentação de colocar a mão na massa antes da hora. Meter a mão na massa sem saber o que está fazendo pode estragar o bolo. Os primeiros 90 dias são cruciais aqui, é quando os acordos serão feitos, o contrato de entregas será estabelecido, as alianças serão formadas, os quick wins serão entregues, e assim por diante. Essa fase define o sucesso de todo o ciclo que está começando. E depois dela segue-se o novo ciclo de entregas.

É claro que no meio do caminho problemas podem ocorrer. Ao final de alguns ciclos, e muitas vezes antes mesmo de um ciclo acabar, um revés (setback) pode se revelar, forçando-o a encerrar o ciclo antes da hora, ou de maneira inadequada. Uma proposta melhor, irrecusável, uma demissão não prevista, qualquer coisa. Por mais duro que seja, você é jogado (ou se joga) em uma nova fase de possibilidades, aprendizado e preparação, chamei no desenho de fase de recuperação. Ela pode não te levar muito além de onde já estava na busca de seus objetivos, mas sem dúvida alguma te trará aprendizados que não teria de outra maneira. Guarde bem isso, pois nos próximos ciclos de crescimento esse aprendizado poderá ser bastante útil, pelo menos na escolha de qual das possibilidades você vai encarar.

No final das contas, com um objetivo claro, foco e firmeza de propósito, e cuidando adequadamente de cada momento do teu Life Kaizen, não fica difícil aproveitar as melhores possibilidades que se apresentarem, sem deixar de entregar bons resultados a cada uma delas, e ter assim um carreira sempre florescente.

Um Comentário em “Life Kaizen

  1. Excelente analogia e adaptação para a vida profissional! Uma forma concisa porém muito abrangente e clara de como tratar bem da carreira profissional e pessoal. Parabéns!

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